Por Diego Meneghetti
Quando os fabricantes de DSLR equiparam suas câmeras com recurso de filmagem, o público mais visado foi e fotógrafos iniciantes em vídeo. Captar fotos e filmes com qualidade e com o mesmo equipamento, de fato, trouxe muitos benefícios para as equipes de imagem, principalmente em coberturas de eventos sociais. Mas essa inovação mexeu com o mercado bem mais do que se imaginava.




Esse “mero” recurso adicional tornou as fronteiras da videografia mais permeáveis, integrando de forma mais ativa profissionais com outras habilidades. É o caso do designer Antônio Carlos Mafia, que mantém um estúdio de criação na zona sul de São Paulo (SP). Especialista em animações digitais e computação gráfica, ele utiliza rotineiramente softwares como Adobe After Effects, Photoshop e 3ds Max em seu trabalho. Seus principais clientes, agências de publicidade e produtoras de vídeo, encomendam peças específicas para integrar campanhas de grandes empresas, como Pão de Açúcar, Volkswagen, Nike, Dell e Nestlé. No entanto, sua demanda começou a mudar a partir do momento em que ele ligou uma Canon EOS 7D na função de vídeo.
Cenas de making of de ensaios fotográficos feitos para a revista YatchBrasi
Cenas de making of de ensaios fotográficos feitos para a revista YatchBrasil
“Até um tempo atrás, gravar com qualidade era algo difícil para profissionais autônomos, principalmente para quem não é ligado diretamente ao vídeo, pois as filmadoras são equipamentos caros. A HDSLR tornou-se uma ótima ferramenta para viabilizar ideias de profissionais de várias áreas, que até então não saíam do papel”, comenta o designer.
Uma das ideias dele veio da parceria com o fotógrafo Wel Calandria, que atua desde 1987 com fotografia de moda, culinária e still. Antônio Carlos começou a filmar os bastidores das sessões fotográficas feitas por Wel, editando os vídeos com recursos de criação artística.
Apresentados aos clientes do fotógrafo, os vídeos logo fizeram sucesso, passando a integrar o pacote de serviços da dupla. A receita desses vídeos de making of não é fruto apenas da captação com diferentes takes e montagem feita de forma caprichada. O diferencial são as intervenções digitais, próprias do “pessoal de arte”.
Ao criar o roteiro, manusear a câmera e fazer a finalização, o designer consegue dar uma consistência maior à linguagem, além de agilizar o trabalho em algumas etapas. “Quando faço a captação, já sei o que irei trabalhar na pós-produção. Assim, consigo filmar de forma mais assertiva e precisa”, explica.

Filme para revista

O fotógrafo Wel Calandria em making of de ensaio com Gianne Albertoni
O fotógrafo Wel Calandria em making of de ensaio com Gianne Albertoni
Um dos trabalhos desse tipo foi a filmagem dos bastidores de um ensaio da modelo Gianne Albertoni, feito por Wel Calandria para a revista YatchBrasil. Enquanto o fotógrafo manuseava uma Hasselblad acoplada a um back digital da PhaseOne, Antônio Calos captava imagens para o making of com duas câmeras da Canon, uma 7D e uma 5D Mark II.
Contudo, o charme do making of surgiu no After Effects, no qual o designer editou o vídeo, adicionando elementos em camadas, formas e tipografias animadas. O filme de 2min40s foi publicado no site da revista, divulgado em mídias sociais e ainda está disponível no portfólio dele (em goo.gl/6mU6t).
O resultado agradou tanto o cliente que ele encomendou outro making of para a mesma edição da revista, além de fechar um contrato de produções parecidas para todas as edições de 2012.
“A possibilidade de falar diretamente com o cliente permite maior controle do resultado, além de maior faturamento, pois não há intermediários. Contudo, é um mercado ainda desacostumado com esse tipo de negócio. Atuar com agências e produtoras ainda é indispensável”, diz.
Atualmente, Antônio Carlos finaliza um vídeo que utiliza técnica de stop motion com animações feitas artesanalmente, em vez de serem criadas totalmente no computador.
O vídeo mostra palavras animadas que se formam na tela, mas, em vez de serem criadas digitalmente no After Effects, as letras foram feitas com o programa Illustrator, impressas e fotografadas uma a uma, o que deu maior realismo ao vídeo

Pesquisa e prática

Estudioso do assunto, Antônio Carlos acredita que ter um bom equipamento não basta para criar belas produções. “A HDSLR democratizou um pouco o vídeo e, com isso, há muita gente dizendo que é diretornde fotografia, mas passa longe dessa função. Não é porque você tem uma filmadora que conseguirá filmar com qualidade”, alfineta.
Ele destaca que a constante pesquisa, prática e desenvolvimento de técnicas são importantes para realizar trabalhos interessantes. Foi com o objetivo de exercitar seu lado criativo que o designer fez o curta Toy Race, produzido no final de 2011.
Antônio Carlos usa palavras animadas, geradas em computador, impressas e fotografadas
Antônio Carlos usa palavras animadas,

geradas em computador, impressas e fotografadas
“Inicialmente, pensei em fazer um vídeo para exercitar técnicas. A ideia foi integrar softwares e recursos de animação para criar um curta autoral”, comenta. O resultado, porém, foi mais longe.
O curta, que mostra uma corrida de carrinhos em 3D a partir de fotos e vídeos feitos com a Canon 7D, usa técnicas de animação e integra vários softwares, utilizados na pós-produção de todas as cenas.
O processo de criação resgata o visual híbrido apresentado pela primeira vez no cinema com o filme Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), que mescla animação e cenas captadas com atores.
Com o aprimoramento da computação gráfica, esse tipo de filme desapareceu das telas.

Demo reel caseiro

Antônio Carlos usou de maneira criativa os brinquedos de sua filha
Antônio Carlos usou de maneira criativa os

brinquedos de sua filha
Em Toy Race, Antônio Carlos quis transformar em filme o que imagina passar pela cabeça de Melissa, sua filha de 2 anos e meio. Isso porque toda produção cenográfica foi feita com os brinquedos da criança.
Para compor o ambiente, a pista por onde os carros correm foi construída com quase mil estrelinhas de origami, feitas uma a uma, pacientemente, pela mulher dele.
“Como foi um projeto autoral, o roteiro foi desenvolvido aos poucos e mudou durante a produção. Utilizei basicamente minha experiência de pai de primeira viagem: os brinquedos da minha filha ficam constantemente no chão da sala e, a partir disso, criei a cenografia para o curta”, afirma.

Making of

Feito de forma quase “artesanal”, o filme utiliza elementos físicos simples, com iluminação proveniente de duas janelas da sala de estar de Antônio Carlos. “Como fiz a captação em dias diferentes, foi preciso filmar e fotografar no mesmo horário, para garantir uma iluminação semelhante. Ainda assim, fiz uma correção de cores no Photoshop e no After Effects”, informa.
O curta foi captado em fotos e vídeos em HD feitos com a EOS 7D, equipada com as objetivas Canon EF 50 mm e EF-S 17-85 mm, além da zoom grande angular Sigma 10-20 mm.
O único acessório utilizado foi um shoulder mount, para estabilização da câmera nas tomadas estáticas e durante as passagens com movimento.
O processo de criação, captação e edição durou cerca de um mês. A primeira etapa foi fazer um storyboard, que se aprimorou no animatic, uma animação digital feita a partir do esboço, ainda em desenhos (um tipo de storyboard animado).
“Como animação é algo trabalhoso e demorado, as etapas de aprovação do cli – ente, como raf, storyboarde animatic são importantes para garantir que a produção siga o caminho certo”, diz o autor, que usou no trabalho autoral processos de uma produção comercial.

Filmagem

Com o programa 3dsMax, Antônio Carlos fez os modelos de carrinhos usados na corrida
Com o programa 3dsMax, Antônio Carlos fez os modelos de carrinhos usados na corrida
Com o roteiro formatado, a etapa seguinte foi fazer a captação de fotos e vídeos. Como os personagens e movimentos de cena foram criados digitalmente, as tomadas do cenário puderam ser feitas a partir de fotos still. As cenas em que aparece a bonequinha da Hello Kitty, porém, foram captadas em vídeo, já que o brinquedo é real e se movimenta por corda.
Já os modelos dos carrinhos foram feitos em 3ds Max e renderizados com Mental Ray, software produzido pela Nvidia. Composição de cores, partículas de brilhos, atmosfera e marcas de pneus foram feitas no Adobe After Effects.
“Com a foto finalizada, importei-a no After Effects como um plano de fundo. Depois, simulei a luz ambiente para os elementos em 3D. Como havia duas fontes de luz na cena, provenientes da luz do dia vinda das janelas, defini dois pontos luminosos no programa. Isso foi preciso para projetar as sombras no chão (G. Shadows)”, explica.
Com o projeto no After Effects, foram feitas outras etapas de renderização, para os reflexos, as formas (diffuse) e os volumes (ambient occlusion) dos carros e as marcas de pneu na pista. As cinco etapas foram relizadas em todas as cenas em que os carrinhos aparecem. O projeto foi finalizado no Adobe Premiere, com ajustes finos e sonorização.
“A maior dificuldade técnica foi acertar as luzes, para coincidir a fonte natural com a iluminação criada no software. Mas, embora a ideia inicial tenha sido misturar técnicas e exercitar a integração de softwares, o grande desafi foi lidar com um projeto autoral, em que você é seu próprio cliente e não há datas definidas para entrega. No final, o projeto pode dar frutos ou em nada”, explica Antônio Carlos.
Após ser divulgado na internet, Toy Race foi notícia na mídia especializada, como os sites zupi.com.br, de arte, design e ilustração, hdslr.com.br, sobre cinefotografia, e na revista ComputerArts, publicada no Brasil pela Editora Europa. Outros trabalhos de Antônio Carlos podem ser vistos no site dele: acmafia.tv.

Fonte: Fotografe Melhor